A assembleia de Deus é calvinista ou arminiana é uma questão teológica que gera discussão entre os próprios membros dessa tradição, porque a identidade doutrinária delas não é monolítica, mas sim reflete uma certa flexibilidade dentro do pentecostalismo clássico.
Origem Histórica e o Contexto das Assembleias de Deus
Para responder se a assembleia de Deus é calvinista ou arminiana, é preciso voltar ao início do século XX, quando o movimento pentecostal emergiu. Naquela época, a teologia reformada calvinista ainda dominava m grande parte do protestantismo tradicional, enquanto o metodismo arminiano pregava a graça preveniente e a resistível. Quando os primeiros grupos de Pentecostais se organizaram, muitos deles, especialmente na Assembleia de Deus dos Estados Unidos, optaram por um caminho intermediário, influenciados por teólogos como R. A. Torrey e por uma leitura prática da Bíblia que priorizava a experiência do Espírito Santo.
A fundação da Assembleia de Deus em 1914 nos Estados Unidos não partiu de um plano teológico rígido, mas de uma necessidade de unir igrejas que pregavam o batismo no Espírito Santo com a fala de línguas. Portanto, a identidade delas não nasceu como uma resposta a um debate calvinista versus arminiano, mas como uma reação ao modernismo e como uma defesa da santidade pessoal e do poder transformador do evangelho. Mesmo assim, a estrutura doutrinária que adotaram herdou traços de ambos os lados, dependendo de qual região e qual liderança predominava.
Traços Arminianos na Doutrina das Assembleias de Deus
A grande maioria das assembleias de Deus oficialmente adotou uma posição que se alinha mais com o arminianismo clássico, especialmente nas declarações de fé que tratam da salvação. Elas geralmente confessam a depravação total, mas com a ressalva de que o homem, ainda caído, pode responder ao chamado divino através de um ato de fé.
- Graça Resistível: A doutrina das assembleias de Deus ensina que a graça de Deus é resistível, ou seja, a pessoa pode, livremente, recusar a salvação. Isso contrasta diretamente com a visão calvinista de graça irresistível.
- Arrependimento e Fé: O arrependimento é visto como um ato precedendo a fé, e ambos são considerados doms de Deus que o homem deve exercer. Não há uma predestação baseada apenas na soberania divina, mas uma condição a ser cumprida pelo crente.
- A ênfase na experiência pessoal e no batismo no Espírito Santo como evidência da salvação reforça a ideia de que o arrependimento e a fé são decisões humanas ativadas pelo poder do Espírito, e não uma simples eleição prévia.
Elementos Reformados e a Influência Calvina
Mesmo declarando-se arminianas, muitas assembleias de Deus mantêm um respeito profundo pela tradição reformada, especialmente no que diz respeito à soberania de Deus. Isso pode ser visto em alguns pontos doutrinários específicos.
Soberania Divina e Eleição
Enquanto a Assembleia de Deus não aceita a ideia de que Deus escolheu uns para a salvação e outros para a condenação (eleição dupla), muitas congregações abraçam a noção de que Deus é soberano em Seu plano de redenção. Elas reconhecem que a salvação é um ato exclusivamente da graça divina, não por mérito humano, o que assemelha a doutrina àquilo que se vê em teólogos calvinistas, embora com uma interpretação arminiana sobre o momento exato dessa eficácia.
- A doutrina da perseverança dos santos é geralmente rejeitada, pois acreditam que o crente pode pecar e se afastar de Deus.
- Porém, a segurança do crente é ensinada, mas baseada na fidelidade de Deus e na obediência do crente, não em uma garantia incondicional baseada apenas na eleição.
O Quadro Atual: Diversidade e Regionalismo
Não é possível falar sobre a assembleia de Deus como se fosse uma única entidade monolítica. Existem dezenas de denominações menores que usam esse nome no Brasil e no mundo, cada uma com suas particularidades. Enquanto a Assembleia de Deus Mundial (Assembleias de Deus nos EUA) tem uma tendência arminiana mais clara, outras ramificações podem ter líderes que pregam uma doutrina mais próxima ao calvinismo, especialmente aquelas que se relacionam com movimentos reformados.
No contexto brasileiro, a Assembleia de Deus no Brasil segue o manual doutrinário que rejeita o calvinismo em ponto nenhum, afirmando a fé na salvação através da fé, mas com um apelo constante ao arrependimento e à santificação. Portanto, a resposta para a pergunta assembleia de Deus é calvinista ou arminiana na maioria dos casos, é arminiana.
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Conclusão sobre a Identidade Teológica
Portanto, a assembleia de Deus oficialmente se posiciona como arminiana, abraçando a livre vontade do homem e a resistibilidade da graça, embora mantenha um respeito doutrinal às verdades da soberania divina. Ao longo da sua história, elas se afastaram da rigidez calvinista para abrazar uma teologia que permite espaço para a resposta humana ao chamado divino. Para o crente que busca entender a fé que professa, é fundamental reconhecer que a identidade delas está mais próxima do arminianismo, mas com uma profundidade teológica que honra a tradição reformada em seus pontos de convergência.