O Que E Senso Comum Na Filosofia

O que é senso comum na filosofia é uma questão que desafia até os pensadores mais experientes, pois envolve a ponte entre a vivência cotidiana e a rigorosa análise crítica.

Definindo o Senso Comum: O Mundo Como Nos Apresentamos

O senso comum, em seu núcleo filosófico, refere-se ao conjunto de crenças, opiniões e julgamentos aceitos pela maioria das pessoas em uma sociedade em um determinado momento histórico.

Ele funciona como um verdadeiro "fundo compartilhado" de entendimento, formado por noções prévias, experiências vividas e verdades que parecem evidentes sem necessidade de um exame detalhado.

Na prática, o senso comum orienta nossas ações diárias, desde escolhermos o caminho mais curta até casa até formarmos opiniões sobre política ou ética, tudo baseado em uma lógica prática e em padrões sociais amplamente reconhecidos.

A Origem Histórica: Das Preocupações Sociais à Crítica Filosófica

A reflexão filosófica sobre o senso comum tem raízes profundas, sendo objeto de atenção desde os pré-socráticos, que questionavam as verdades aceitas sobre a natureza do cosmos.

No entanto, foi a partir da filosofia moderna, especialmente com pensadores como Francis Bacon e, posteriormente, o cartesianismo, que o senso comum passou a ser visto não como uma guia infalível, mas como um possível obstáculo para o conhecimento verdadeiro.

Para muitos filósofos, o senso comum representa uma postura ingênua, baseada em opiniões não examinadas que podem nos afastar da essência das coisas, exigindo, portanto, uma crítica rigorosa para que possamos alcançar um conhecimento mais sólido e imparcial.

O Papel Crítico: Entre o Domínio Cotidiano e a Filosofia

Na filosofia, o senso comum desempenha um papel paradoxal, ao mesmo tempo em que é utilizado como ponto de partida para a compreensão e, ao mesmo tempo, como objeto a ser investigado e, muitas vezes, superado.

Enquanto o senso comum nos fornece as categorias básicas para interpretar o mundo, como tempo, espaço, causalidade e pessoa, a filosofia questiona a validade e a origem dessas categorias.

Essa relação dialética é fundamental, pois o senso comum fornece o campo de experiência no qual a filosofia atua, mas a filosofia, em contrapartida, busca expor as falácias e contradições inerentes a esse conjunto de crenças, muitas vezes revelando sua natureza contingente e histórica.

Exemplos Práticos: Do Cotidiano ao Abstrato

Vamos a exemplos concretos para ilustrar o conceito de senso comum na filosofia.

  • Senso comum sobre a natureza: A crença de que a terra é plana e que o sol "nasce" e "se põe" é um exemplo clássico de senso comum que foi superado pela ciência.
  • Senso comum sobre o outro: A ideia de que as primeiras impressões sobre uma pessoa são sempre verdadeiras é um senso comum que a filosofia critica, destacando a complexidade da subjetividade e a possibilidade de enganos.
  • Senso comum sobre o tempo: A noção de que o tempo é uma linha reta e objetiva, que flui para uma única direção, é um senso comum que a filosofia e a física moderna questionam, propondo visíveis mais relativas e complexas.

Esses exemplos demonstram como o senso comum, embora útil para a vida prática, pode ser enganoso quando confrontado com a análise filosófica e científica.

A Relação com a Filosofia Analítica e a Ética

Na filosofia analítica, o senso comum é frequentemente tratado com ceticismo, especialmente em questões de conhecimento e linguagem.

Filósofos como Ludwig Wittgenstein, em certo momento, exploraram a linguagem do senso comum como um jogo, enquanto outros, como Bertrand Russell, buscavam construir um conhecimento mais claro e definitivo, livre das ambiguidades do falar corrente.

Na ética, o senso comum desempenha um papel ainda mais crucial, pois muitas vezes é a base de nosso senso de dever e moralidade.

No entanto, a filosofia ética não pode se contentar com o senso comum, pois este pode ser contraditório, culturalmente específico e, às vezes, justificar práticas injustas.

O filósofo deve, portanto, confrontar o senso comum com princípios éticos racionais, questionando se o que "todo mundo pensa" é, de fato, justo ou moralmente correto.

A Importância Epistemológica: Entre a Ignorância e o Conhecimento

O estudo do senso comum é crucial para a epistemologia, a filosofia do conhecimento, pois nos ajuda a entender como adquirimos e validamos o que consideramos saber.

Ele nos alerta para a diferença entre crenças bem fundamentadas e mero palpite, incentivando uma postura crítica mesmo em relação a verdades aparentemente evidentes.

Reconhecer o senso comum é o primeiro passo para transcender sua limitação, permitindo que passemos de uma compreensão ingênua e não-reflexiva para uma compreensão mais crítica e informada do mundo e de nós mesmos.

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Conclusão: O Valor Dialético do Senso Comum

O que é senso comum na filosofia não é apenas um conjunto de verdades erradas, mas uma categoria essencial para o exercício da própria filosofia.

Ele representa o ponto de partida inevitável de qualquer reflexão, o terreno fértil no qual nascem as perguntas filosóficas e o alvo permanente da crítica racional.

Assim, o verdadeiro valor do senso comum reside exatamente nesse confronto dialético: nem ignorá-lo cegamente nem aceitá-lo sem questionamento, mas utilizá-lo como uma ferramenta para uma investigação filosófica mais profunda e, ultimateamente, para alcançar um conhecimento mais sólido e autêntico.

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